Histórias de superação: jovens e adultos concluem os ensinos Fundamental e Médio através da EJA e já pensam no futuro

15/07/2019 13:37

 

O motorista de ônibus Israel Perez é um exemplo de dedicação e superação. Com 50 anos de idade, ele esteve na sede da Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura (Seduc) para assegurar o seu certificado de ensino médio. O momento foi de grande emoção para ele, que conseguiu a certificação por meio dos Exames Supletivos, que são realizados pela Seduc através do Serviço de Educação de Jovens e Adultos (SEJA) e que têm concedido a milhares de pessoas a chance de recuperar o tempo que por algum motivo social ficaram longe dos estudos.

 

Natural de São Paulo (SP), Israel conta que parou de estudar na 5ª série do ensino fundamental devido a dificuldades financeiras pelas quais a família passava. Já adulto, se tornou motorista de ônibus e tentou retomar os estudos aos 30 anos, mas teve que desistir novamente por não conseguir conciliar o tempo entre trabalho e as aulas. De lá para cá, fez alguns cursos profissionalizantes e diz que nunca deixou de ler, buscar conhecimentos e acessar informações na internet.

 

Divorciado, Israel hoje mora com uma companheira e tem duas filhas maiores de idade. Ele conta que veio para Sergipe porque toda a família dele é sergipana e, ao chegar na capital, começou a trabalhar como motorista de ônibus novamente.

 

Com o certificado de ensino médio em mãos, Israel já tem planos para o futuro. “Hoje tenho uma certa idade que já não me oferece tanta oportunidade na área de motorista, pois já estou sofrendo com algumas condições físicas. Resolvi fazer o Supletivo para terminar os meus estudos e tentar uma oportunidade em outra área, que segundo alguns testes vocacionais que fiz, seria Recursos Humanos, Serviço Social ou Advocacia. Optei por Recursos Humanos”, disse.

 

Estudos e certificado

 

Ele explica que durante todo o tempo em que se preparava para os Exames Supletivos, estudou em casa sozinho por meio de livros, computador e internet. Além disso, também buscou conhecimentos com alguns professores que conhece. Ao se certificar nos Exames Supletivos, a emoção tomou conta. “Isso daqui para mim é como se eu ganhasse na loteria. Eu fui muito cobrado pela minha mãe, porque eu desisti dos estudos ainda muito jovem. Esse certificado para mim está sendo um presente de Deus. Eu agradeço muito à Secretaria de Estado da Educação por estar me abrindo essa oportunidade. Farei o máximo que puder para honrar esse certificado, porque eu lutei bastante por isso. Hoje posso falar para todo mundo que eu tenho o ensino médio”, declarou.

 

Israel Perez é um dos 380 cidadãos que já foram certificados em 2019 nos Exames Supletivos, sendo 22 do ensino fundamental e 358 do ensino médio. Em 2018, a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura (Seduc), por meio do Serviço de Educação de Jovens e Adultos (Seja), certificou um total de 972 jovens e adultos, sendo 37 do ensino fundamental e 935 no ensino médio.

 

Superando dificuldades

 

Fernanda Maria, que atualmente tem 38 anos e mora na cidade de Paripiranga (BA) teve a chance de fazer os Exames Supletivos e se superou nos estudos. Aos 14 anos de idade ela se casou já grávida e, por isso, não teve como continuar os estudos. “Devido às responsabilidades da maternidade, tomei a decisão de cuidar do meu filho, renunciando a um grande sonho que era concluir os meus estudos. Depois de dez anos resolvi voltar a estudar pela Educação de Jovens e Adultos, mas fiquei grávida de uma menina, então mais uma vez engavetei meu sonho, dando prioridade sempre aos meus filhos”, explicou.

 

Com o nascimento da filha, ela e o marido foram morar em São Paulo (SP) em busca de trabalho. Lá, Fernanda trabalhou como doméstica, manicure, entre outras atividades. Conseguiu voltar a estudar, mas novamente precisou parar, pois a família teve que retornar para a cidade de Paripiranga. “Decidi que não voltaria mais a estudar e seguiria minha vida, mas 12 anos se passaram até que uma amiga me mandou um anúncio falando para eu me inscrever nos Exames Supletivos, pois eu era muito inteligente e essa poderia ser minha oportunidade. Não pensei duas vezes e me inscrevi, estudei em cursinhos online gratuitos, consultava provas anteriores e fiz a prova”, relatou ela, que se submeteu ao Supletivo no ano passado para o concluir o Ensino Fundamental. Moradora de Paripiranga (BA), ela veio fazer as provas do Supletivo em Aracaju, na capital sergipana, por ser o local mais próximo à cidade em que ela reside.

 

Ela conta que, na correria do dia a dia, acabou nem olhando resultado na data da divulgação. “Ansiosa, pensava que não havia dado certo. Mas depois, quando finalmente fui ver o resultado, a alegria foi muito grande, pois eu tinha conseguido. Busquei meu certificado na Secretaria de Educação de Sergipe muito emocionada e feliz por ter conseguido realizar a primeira parte do meu sonho”, declarou.

 

Agora, com o certificado de conclusão do ensino fundamental em mãos, ela já pensa no próximo desafio a superar: concluir o ensino médio. Para isso, Fernanda já está inscrita novamente para fazer os Exames Supletivos, que acontecerão no dia 25 de agosto.

 

Certificado aos 59 anos

 

Deficiente visual, 59 anos de idade, Roque Hudson da Fonseca Hora esteve na Divisão de Exames e Certificação (DIEX) da Seduc no mês de maio para pegar o seu certificado de ensino médio.  Ele conta que parou de estudar em 1974, prestes a completar 14 anos de idade. Segundo ele, abandonou os estudos porque na época pensava mais no lazer, e logo depois começou a trabalhar em diversas atividades diferentes, como pintor, carregador de feira, serviços sociais, entre outras.

 

Somente no ano passado, após45 anos sem estudar, resolveu fazer o Supletivo, logrando êxito em todas as provas. “Percebi que ainda tenho idade para fazer algo a mais, então resolvi fazer para que eu possa ter um conhecimento e um posicionamento melhor na vida, até mesmo ser mais sociável. Estou agora prestes a fazer marcar a data para fazer o Supletivo para o Ensino Médio”, disse.

 

Roque Hudson atualmente é aposentado e presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, voluntariamente, cargo que lhe propicia trabalhar em prol das pessoas menos favorecidas. Para ele, ter o certificado de ensino fundamental e, futuramente, de ensino médio, é uma forma de buscar melhorias e ter mais condições de levar algo de bom para os semelhantes.

 

“Procurei sempre me adaptar às dificuldades, de maneira autodidata. Mas creio que esse certificado é uma vitória para mim, pois tenho um certificado a mostrar em qualquer local que me exija. Ainda não penso em fazer faculdade, mas gosto muito das áreas de Direito e Jornalismo”, declarou.

 

Exame de Competências

 

Outra forma de concluir os estudos é através do Exame Nacional para Certificação de Competência de Jovens e Adultos (Encceja), que é ofertado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), certificado pela Seduc ou pelo IFS (a depender da escolha do candidato). Por meio do Encceja, em 2018, a Seduc certificou 1.751 jovens, sendo 133 no Ensino Fundamental e 1.618 no Ensino Médio.

 

Segundo o chefe do Serviço de Educação de Jovens e Adultos (Seja), Vlademir Silva Santos, em 2018 foram matriculados 42.620 alunos nas diferentes turmas de Educação de Jovens e Adultos, nas redes estadual, federal, municipais e particular. Somente na rede estadual a quantidade de matriculados na EJA passou de 16.939 (2018) para 17.786 matriculados (2019).

 

“A Educação participa de muitas mudanças na vida dos cidadãos, permite que eles transitem pelo mundo de forma correta, ágil e plenamente ciente de seus direitos. Através da EJA, há um resgate social das pessoas que, porventura, não tiveram acesso à escola na idade adequada. Ela propõe que seja ofertada a eles aquilo que mais necessitam naquela fase de vida em que se encontram. A EJA prepara esses jovens e adultos para uma melhor recolocação no mercado de trabalho e requalificação profissional, para que se sintam cidadãos plenos”, afirmou Vlademir Santos.

 

Para o coordenador da Divisão de Exames e Certificação (DIEX) da Seduc, professor Edson Aragão, as duas maneiras de obter o certificado são mais do que simples provas. “Tanto o Supletivo quanto o Encceja vão além de uma atividade pedagógica. Esses exames oportunizam uma qualificação para centenas de jovens e adultos que não possuem a escolaridade que o mercado de trabalho exige. É uma atividade social que atende a todo esse público da Educação de Jovens e Adultos, dando a eles uma chance de ascensão profissional.

 

Novidades

 

A diretora do Departamento de Educação (DED/Seduc), Ana Lúcia Lima, ressalta que o Serviço de Educação de Jovens e Adultos trará uma novidade a partir deste segundo semestre de 2019. Trata-se da implementação de um novo componente curricular em 29 escolas-piloto que irão oferecer a EJA no turno diurno, atendendo adolescentes de 15 a 17 anos que estão em distorção idade-série. Esse novo componente curricular, chamado “Projeto de Vida, Educação Financeira e Empreendedora” será ofertado por meio de uma parceria entre a Seduc e o Sebrae. Os alunos da EJA terão também Oficinas de Letramento de Numeramento, em que serão trabalhadas atividades como produção de textos e redação, gêneros textuais, resolução de problemas, entre outras.

 

“A Educação de Jovens e Adultos tem um papel fundamental nessa possibilidade de o indivíduo refazer a sua vida acadêmica e reestruturar a sua trajetória de vida. Como muitos não tiveram a oportunidade de se alfabetizar e concluir a educação básica na idade certa, essa falta do exercício do direito à educação faz com que eles não exercitem outros direitos. A partir do momento em que uma pessoa de idade volta a estudar, ela amplia o seu leque de melhorias e retoma a sua trajetória de vida escolar”, disse.

 

Outra novidade são os Simulados Online, cuja primeira edição foi realizada no mês de junho, com questões referentes a Ciências Naturais para os níveis fundamental e médio. Foram disponibilizadas no portal do Supletivo (www.seduc.se.gov.br/supletivo) 30 questões para cada nível, devidamente comentadas por professores da rede pública estadual. Todas as sextas-feiras são lançados novos simulados no portal, que estarão disponíveis até o dia 25 de agosto, quando ocorrerão a prova do Encceja. “É um preparatório para os alunos da rede estadual e também para os cidadãos que não têm tempo para cursar uma modalidade regular ou EJA, mas que podem utilizar esse material para os seus estudos em casa”, explicou Vlademir.

 

Serão ofertados aos alunos da EJA, também, cursos de Formação Inicial e Continuada (FIC), em parceria com o Serviço de Educação Profissional (Sepro/Seduc). Esses cursos têm a finalidade de capacitar, aperfeiçoar e atualizar o estudante que deseja entrar ou retornar ao mercado de trabalho de maneira rápida e eficiente. Segundo Vlademir, foram realizados estudos de demanda junto às escolas da EJA, para que depois fosse feita a solicitação de implantação desses cursos nas regionais solicitantes. Serão cursos em diversos eixos tecnológicos, como Gestão e Negócios, Informação e Comunicação, Hospitalidade e Lazer, entre outros.Eles serão realizados de forma concomitante, ou seja, no contraturno do horário de estudos da EJA.